Partilhar 2009
  • Partilhar N.º 48   ( 13 Artigos )
    48_Trabalhada

    O teste das horas difíceis

    É perante as dificuldades que a vida coloca aos membros de Alcoólicos Anónimos que estes, podem ajuizar dos progressos que tiveram fruto das mudanças que o programa de recuperação nos propõe.

    É confrontando-se com problemas graves, daqueles que podem fazer emergir a raiva, a teimosia, os ressentimentos do amor-próprio ferido, a arrogância e o orgulho, o auto engano e a intolerância, que o membro de AA avalia a sua verdadeira condição espiritual.

    O 4º Passo do Programa de Alcoólicos Anónimos é fundamental para um conhecimento real da situação, quando se colocam as seguintes perguntas:

     A minha raiva em relação a mim ou aos outros tem, por exemplo, origem nas minhas expectativas frustradas? Não terão sido estabelecidas metas demasiado ambiciosas? Não terão sido ignoradas ou menosprezadas as capacidades de terceiros em agirem por si próprios e de maneira diversa à que eu tenho como certa?

    Estarei a ser perseverante, insistente e determinado? Ou apenas teimoso, motivado pelo orgulho que me impede de reconhecer o erro do meu julgamento?

    Ajo com assertividade e firmeza defendendo convicções apoiadas nos valores espirituais do programa? Ou uso de arrogância e intolerância, originadas pela imagem que tenho de mim mesmo e pelo amor-próprio ferido?

    Quando constato falhas nos outros que me incomodam, refiro-as de maneira pacífica e com aquele grau de aceitação necessária à harmonia? Ou comprazo-me em apontar os erros, dando uma ênfase altissonante às consequências, mesmo que hipotéticas?

    Face a face com as adversidades, umas decorrentes das circunstâncias normais da vida e outras originadas pelos meus actos tenho, agora em recuperação, o livre arbítrio de escolher o caminho que quero percorrer: o que me é apontado de forma tentadora (até exibicionista), pelos meus instintos por vezes ainda desenfreados ou por aquele outro, que me pede alguma humildade, flexibilidade, boa vontade e mente aberta?

    Hoje, sem beber, posso escolher e ser apenas eu próprio,  verdadeiramente responsável pelos meus actos.

    O Editor

  • Revista N.º 47   ( 15 Artigos )

    Revista N.º 47

    Revista Nş 47

    Primeira Página

    Nos dias 28 e 29 de Novembro e 1 de Dezembro de 2008, em S. Pedro do Sul, decorreu a V Convenção Nacional de Alcoólicos Anónimos de Portugal. Teve por lema:” Por nós e por aqueles que hão-de vir”. Foi a minha primeira convenção. Antes, e principalmente durante o feliz evento, tive o ensejo de reflectir sobre o lema. O ambiente vivido era propício a “repensar-me” e o lema colocou-me, desde que o conheci, um pequeno desconforto no meu íntimo, sem que alguma vez questionasse porquê. Era agora a altura. Como sou uma pessoa com tendência para complicar resolvi, como mero exercício facilitador do raciocínio, colocá-lo na forma singular: “Por mim e por aquele que há-de vir”. Simplifiquei mas fiquei mais desconfortável ainda. Afinal é sempre mais fácil falar no plural, eu e os outros… de preferência dos outros. Com o esforço requerido a quem não lhe apetece pensar, a primeira ideia que me veio à mente foi que o lema transmite “acção”, “fazer qualquer coisa”. Por mim e por aquele que há-de vir… o QUÊ?... e COMO?... e podia ainda acrescentar o QUANDO e o PORQUÊ. Afinal qual será a mensagem que lhe está subjacente? Colocadas as questões desta forma, as ideias começaram a fluir. Umas vezes devagar, diria mesmo preguiçosas e acompanhadas do sentimento tranquilo e gostoso de quem poderá estar no caminho certo; outras vezes em catadupa, próprio de quem está a descobrir e a aprender e, por isso, com dúvidas, avanços, recuos e consequentemente com algum desconforto. De qualquer forma, é bom reflectir. O balanço foi bom e acredito ter ficado mais rico.

    A resposta à questão “O QUÊ?” levou de imediato o meu pensamento à “RECUPERAÇÃO”. Em diversas e sucessivas recordações, o pensamento levou-me aos meus dias difíceis de bebedor problema. À enorme angústia, transformada em dor física, provocada pelo paradoxo de não querer beber mais e de continuar a fazê-lo, uma e outra vez, de forma compulsiva, desbragada, avassaladora, inconsequente e destruidora. Lembro-me de querer parar e não ser capaz. Lembro-me de procurar médicos, psiquiatras e psicólogos. Lembro-me dos resultados temporários no que respeita a parar de beber mas, com a alma em sofrimento contínuo. Foi assim que cheguei a AA.

    Retive a mensagem do 1º Passo: admitir que era impotente perante o álcool. Com mais ou menos dificuldade acabou por fazer sentido. Afinal era uma questão de sobrevivência e se outros eram capazes eu também seria. Contudo, não estava na altura (e assim foi por muito tempo) de perceber o quanto o 1º Passo é importante como ponto de partida para uma sólida recuperação. Paguei por isso, e também por outras coisas.

    Se fui capaz de aceitar a minha impotência perante o álcool, o que aliás me parecia evidente, a verdade é que a minha mente recusou, diria mesmo, apagou, o facto de a minha vida estar ingovernável. Afinal, ao contrário de muitos companheiros, tinha família, ordenado, carro e casa.

    Só mais tarde percebi que a minha vida  estava ingovernável, porque estava praticamente vazio de sentimentos e emoções e os poucos que restavam estavam simplesmente virados para o abismo: baixa auto-estima, medo, raiva, egoísmo, egocentrismo, ódio, desespero, arrogância, intolerância e outros que ficam por citar. Só mais tarde percebi que o 1º Passo é de facto o ponto de partida de um processo  de profundas transformações no meu carácter, através das mudanças de atitudes e que são propostas nos restantes Passos do Programa de AA.

    Relativamente ao “COMO?” e ainda a pensar na “recuperação”, fui encaminhado até à 1ª Tradição: “O nosso bem-estar comum deverá estar em primeiro lugar; a recuperação pessoal depende da unidade de AA.” Hoje não tenho dúvidas que uma das coisas que me levou a ficar em AA, foi o facto de ter encontrado um conjunto de pessoas que comungavam de todos os meus desarranjos. Mais importante ainda, terá sido o facto de nada me ter sido imposto por esse conjunto de pessoas ou por alguém em particular. Constatei que falavam de si próprios, um de cada vez e sem sobressaltos ou diálogos inflamados. Foi uma descoberta verificar que cada um falava quando e se quisesse, bastando-lhe apenas esperar que o antecessor terminasse. Inicialmente, nas minhas primeiras reuniões, era tanta a identificação que, muitas vezes, assaltava-me a vontade de corroborar, perguntar, complementar… mas não o fazia. Por outro lado, ninguém me contrariava naquilo que dizia, logo, deixou de haver motivo para impor o que quer que fosse. Não havia necessidade de argumentar em minha defesa já que ninguém me atacava. Foi o início do fim da tentação de impor a minha vontade.

    Apenas o início porque ela ainda cá anda. Como que sabe que poderá ter um fim, e então esconde-se. Afinal acabei por perceber que os caminhos da recuperação em AA devem ser trilhados no Grupo. Para tanto, devo consciencializar e modificar as atitudes que são claramente o reflexo do querer impor a minha vontade, que aliás, por si só, nunca me levou a nada de bom. Se não o fizer e se outros não o fizerem, rapidamente assistirei ao fim do grupo. E se acontecer o mesmo a outros grupos? Nestes termos continua a ser a questão da minha sobrevivência. Conforme o tempo foi passando, tornou-se claro que nenhum dos membros do grupo fazia uso da sua condição pessoal no que respeita a profissões, saberes ou estatutos sociais. Falavam dos seus percursos alcoólicos, das suas insanidades, do seu sofrimento e de como se sentiam e viviam em 

    recuperação. Nesta minha reflexão, fui assim parar à nossa 5ª Tradição: “Cada grupo tem apenas um propósito primordial – levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. Li na literatura de AA e parece-me importante reter que: “um membro de AA, para se identificar com o recém-chegado e orientá-lo no caminho da recuperação não depende, de maneira alguma, dos seus conhecimentos, da sua eloquência ou de outra capacidade especial. A única coisa que importa é que entre alcoólicos, os legados de sofrimento e de recuperação sejam partilhados com espontaneidade”. Isto deve servir-me para quando tenho a tentação de dizer “não sou capaz”, escudando-me assim numa incapacidade que me dá jeito para nada fazer ou dizer.

    Para mim e depois destas reflexões, as quais partilho convosco, ficou mais claro que a mensagem subjacente ao lema da nossa V Convenção, é de que devo contribuir com responsabilidade e humildade para que se mantenham vivos e inalterados os 3 Legados de AA: Recuperação, Unidade e Serviço.

    Para terminar, não resisto a transcrever um excerto de uma partilha do Dr. Bob, por ocasião da 1ª Convenção Internacional de AA, Cleveland, EUA(onde foram adoptadas as 12 Tradições), em 13 de Julho de 1950: “Nenhum de nós estaria hoje aqui, se alguém não tivesse gasto algum do seu tempo a explicar-nos as coisas, para nos dar uma pequena palmada nas costas, para nos dar uma ou duas reuniões, para ter connosco pequenos e numerosos actos cheios de bondade e consideração. Portanto, nunca devemos adquirir esse grau de complacência, ao ponto de não estarmos dispostos a oferecer, ou a tratar de oferecer, aos nossos irmãos menos afortunados a ajuda que foi tão benéfica para nós.”  

    Jorge B. - Área 9

     

     

     

  • Revista N.º 49   ( 13 Artigos )

    Partilhar N.º 49

    49_trabalhada

    Nota de Abertura

    Toda a comunidade de Alcoólicos Anónimos celebra, nas mais variadas línguas e durante o mês Sete que há pouco findou, um sentimento fundamental para a recuperação efectiva dos alcoólicos. Referimo-nos, obviamente, à humildade; tema que dá corpo ao Passo Sete do programa de recuperação de AA. Num mundo onde as aparências, a ostentação fútil e a exposição a qualquer preço nos são apresentados, diariamente, quase como valores normais de comportamentos e até de modos de vida, a humildade sugerida em AA toma uma inusitada relevância.

    Não só pelo sentimento em si, que é incompatível com o mediatismo e eventual aproveitamento, mas pela qualidade de carácter necessária à sua existência. Falamos, claro está, da honestidade. Para os membros de AA que se preocupam em praticar o melhor que podem os princípios sugeridos, a honestidade é a base fundamental, o alicerce indispensável. Porque, para uma efectiva mudança, torna-se essencial fazer as coisas, sejam elas quais forem, pelas razões correctas. Sem falsos argumentos, meias verdades ou de “faz de conta”.

    Entretanto convém ter sempre presente que em AA, para se chegar a uma atitude de alguma humildade, há um caminho longo e difícil que é necessário percorrer: admitir a impotência, acreditar numa força superior á nossa, aceitar e entregar superiormente a nossa vontade e a nossa vida, fazer um rigoroso inventário moral de nós próprios, admitir perante nós e perante outros a natureza dos nossos erros e dispormo-nos, inteiramente, a livrar-nos dos nossos defeitos. Usando, naturalmente, da honestidade e boa vontade necessárias. Por esta altura, eventualmente, ter-se-á adquirido a humildade necessária para abrir mão das partes menos boas do “EU” de cada um que, cíclica mas inexoravelmente, continuam a ensombrar de forma variada, as nossas vidas.

    Assim, a paz de espírito esperada deixa de parecer uma utopia, a sobriedade emocional pode antever-se se bem que ainda em lampejos e, as promessas, de algum modo, vão-se cumprindo. De qualquer maneira, a grande dificuldade será sempre a causa das coisas, ou melhor: a sua honesta identificação. Porém, e sendo provavelmente o caminho menos percorrido, o livro “Alcoólicos Anónimos” indica claramente a direcção a seguir.

    O Editor.

  • Revista N.º 50   ( 15 Artigos )

    Capa50.2A “Recuperação” é também um trabalho interior.

    O que a comunidade dos “Alcoólicos Anónimos” propõe aos alcoólicos que a procuram em busca de ajuda, vai muito além da sugestão de “parar de beber” - apesar desta ser absolutamente incontornável.

    O que o programa de AA sugere é um trabalho contínuo de transformação interior, de modo a que os seus membros se sintam cada vez mais confortáveis no seu papel, enquanto seres imperfeitos e transitórios, no que resta da breve representação das suas vidas.

    Qual é a pessoa que poderá viver minimamente tranquila, se persistir na vã tentativa de comandar o mundo que a rodeia e modificar as pessoas com quem se relaciona tentando, insistentemente, fazer prevalecer a sua vontade?

    Qual o ser humano que poderá alguma vez sentir-se satisfeito perante a sua própria consciência, se continuar numa disputa contínua com os outros, gerando em si raivas e ressentimentos que alimentam, invariavelmente, um destrutivo sentimento de vingança?

    Ao fim e ao cabo, qual é o alcoólico que apenas parando de beber e mantendo o mesmo cariz desenfreado de sentimentos e emoções dos tempos de consumo, pode garantir honestamente que está a caminho da sobriedade, se souber que o estar sóbrio significa, de raiz, ser moderado, simples e despretensioso?

    Em boa verdade, estar em recuperação nos Alcoólicos Anónimos, é um trabalho interior sem fim à vista, cujo desenvolvimento e progresso as relações interpessoais põem inexoravelmente a descoberto, à luz do dia, com uma extraordinária simplicidade e evidência, a cada nova experiência de vida. E como trabalho sem termo fixo, constantemente comprovado, designamo-lo com a palavra “Recuperação”; lembra uma acção necessariamente continuada mesmo que, por vezes, por defeito de leitura ou entendimento se diga (ou sinta), recuperado - e desadequadamente, se proceda de acordo com uma ilusória e perigosa verdade absoluta.

    Nos meses de Novembro, é citada milhares de vezes uma frase do 11º Passo do programa de AA: “…pedindo apenas o conhecimento da Sua vontade em relação a nós e a força para a realizar”. O trabalho interior necessário a um permanente ajuste emocional a esta proposta de modo de vida é, pese embora a grande dificuldade em se aceitar, uma marca de água insubstituível e iniludível da recuperação dos Alcoólicos Anónimos.

    O Editor

Seo Uzmanı,prefabrik ev, Prefabrik Ofis, Ukash Kart, Sex Shop, Prefabrik Şantiye