A escalada

Tudo começou com uma lata de cerveja no final do dia de uma sexta-feira, a primeira de três anos do inferno em que se tornou o meu emprego como directora – e depois a minha vida pessoal e familiar. A partir desse dia, todas as sextas-feiras acabavam com uma lata de cerveja. Depois passaram a ser também as quartas-feiras; depois todos os dias. Depois passaram a duas latas por dia; depois passou a um copo de vinho branco; depois dois; depois uma garrafa; depois duas; depois até vodca… depois, por vezes, bebia já durante o dia… Os consumos aumentavam na razão directa da escalada dos problemas laborais.

Fazia tudo isto sempre sozinha e às escondidas, paradoxalmente sem gostar do sabor do álcool e, não raras vezes, tendo de tapar o nariz para o tragar de uma vez só, acabando por vomitar, e insistir até conseguir retê-lo em mim. O efeito da embriaguez era o único objectivo que me motivava a beber.

A certa altura, achei que era demais, mas que, ainda assim, conseguiria parar de beber quando quisesse. Não consegui. Obviamente, não consegui. Estava doente.

A razão – achava eu – era o trabalho, mas, na verdade, era a minha condição de obsessiva-compulsiva e de alcoólica. E de cobarde! A obsessão compulsiva levou-me a beber sempre acima do razoável; o alcoolismo levou-me a não conseguir parar de beber; a cobardia levou-me a beber para não enfrentar com lucidez as contrariedades e frustrações (e não para aliviar o stress, como eu pensava).

Rapidamente o alcoolismo passou para as esferas pessoal e familiar. Pessoal porque afectou a minha auto-estima, na medida em que percebi que não conseguia controlá-lo; e familiar porque, por causa dele, acabei por perder o meu marido e quase a minha filha, e fui responsável pelo definhamento dos meus pais.

Na insanidade do meu alcoolismo, fui contra paredes e móveis, parti a cabeça, um dedo e um dente e andava constantemente com nódoas negras (ao ponto de me perguntarem se era vítima de violência doméstica); entrei em coma alcoólico várias vezes e em algumas cheguei a sofrer de tremores (delirium tremens) durante três a quatro dias, em que não conseguia sequer andar e bebia litros de água para reverter a desidratação que o álcool provoca. De cada vez que tal acontecia, jurava que nunca mais iria beber. E assim era até à próxima contrariedade ou frustração, que eram o mote para recair e regressar ao ciclo diabólico da adicção.

Um dia, embriagada, telefonei a uma amiga. Confidenciei-lhe que bebia sempre que as coisas me corriam mal. Ela confidenciou-me o mesmo. No dia seguinte, convidou-me para sair e ir até ao Estoril. Aceitei e encontrámo-nos com dois companheiros de AA que me desafiaram a assistir a uma sessão. A minha amiga disse que não poderia assistir por não ser alcoólica. Senti que era uma cilada e considerei-me traída! Fui-me embora e deixei de falar com a “traidora”. E continuei na minha vida de alcoólica solitária e encapotada.

Se, no início, o meu marido me acompanhava num copo, logo deixou de fazê-lo quando percebeu que eu não tinha limites, mas tinha consequências. De facto, a extrema – ou pelo menos a mais inesperada – consequência do meu alcoolismo sucedeu num final de tarde já bem bebido, em que conheci um mendigo com quem bebi ainda mais e acabei por me envolver, terminando o dia numa casa abandonada… Claro que não tardou para que o meu casamento acabasse e eu quase perdesse a minha filha.

Foi então que relembrei o encontro com os companheiros do Estoril e telefonei para os AA a pedir ajuda. E foi assim que comecei a frequentar o grupo Pertencer, de Tires. Fui a várias reuniões, mas tudo me parecia estranho e sem grande sentido, sobretudo na parte de Deus e do Poder Superior. Eu, que tinha formação religiosa, que tinha andado na catequese e num colégio de freiras, era agnóstica por não conseguir alcançar o conceito de divindade e estava já quase descrente da própria vida. Como poderia, nessas condições, seguir o Segundo e o Terceiro dos Doze Passos de AA? Nunca passaria do Primeiro! Inevitavelmente, acabei por deixar de frequentar as reuniões e continuei na minha vida de alcoólica.

Entretanto, conheci outra pessoa que me acompanhava, inicialmente, num e noutro copos. Chegámos mesmo a embriagar-nos juntos algumas vezes. Mas, tal como o meu ex-marido, também ele deixou de o fazer quando percebeu a dimensão do meu alcoolismo, que galopava agora com o confinamento da pandemia do Covid-19. Desta vez, foi ele que me deixou entregue ao álcool. E assim sofri mais uma perda para o monstro «manhoso, desconcertante e poderoso», como o descreve o Capítulo Cinco do livro Alcoólicos Anónimos.

Novamente sozinha e confinada, voltei a procurar AA – agora com convicção e determinada a descobrir o meu Poder Superior! É aqui que me encontro, em reuniões de vários Grupos à distância, voltando diariamente para que isto funcione, se eu trabalhar para isso.