Liberdade

Enquanto bebi, fui prisioneira de muitos cárceres: obsessão, visão distorcida da realidade, ressentimento, mentira, solidão, vida desgovernada, preguiça... A obsessão não me deixava optar por não beber, mesmo que o desejasse. O álcool distorcia o meu juízo, tornando-me reactiva às situações, trouxe-me atritos, problemas financeiros e desequilíbrio emocional. O ressentimento alimentava a minha insanidade, pois o pensamento ficava preso num ciclo negativo, em que revivia situações difíceis, e levava-me à autopiedade. 

Embora tenha sido uma pessoa que estimava valores como a verdade, ao fazer os Quarto e Quinto Passos dei-me conta de inúmeras vezes em que distorcia a realidade, conforme me dava mais jeito. As "verdades" construídas foram-se acumulando, tornando-se tão reais que passei a ter dificuldade em distingui-las. 

Eu era uma mulher só. Uma mulher que bebe não é bem vista pela sociedade. Fui criando hábitos de beber acompanhada de um livro, no café, onde bebia uma a três bebidas. Mas a sede era maior e era em casa que bebia o resto das minhas noites. Bebia de porta fechada, com a desculpa conveniente de não deixar alastrar o fumo do tabaco, permitindo assim disfarçar a quantidade bebida. Quando estava alcoolizada, não tinha paciência para estar com outras pessoas. Nos dias mais depressivos, as minhas companhias eram apenas a garrafa, o copo e uma quantidade enorme de cigarros. 

O ponto de viragem libertador foi a minha primeira ida a uma reunião de AA. Não tenho mérito na decisão, pois devo-a a três amigos que, durante um jantar e serão, me disseram verdades duras de ouvir. Não lhes facilitei a vida, pois reagi mal, tornando-me desagradável para quem estava a tentar ajudar. No fim da noite, concordei em ir a uma reunião para os calar, não que estivesse convencida da necessidade. Desde o dia em que entrei na sala da Parede até hoje, não bebi. Agradeço a Deus ter estes amigos persistentes. 

Cheguei às salas com a vida virada do avesso, nada fazia sentido. Foi o amor que encontrei em AA que me foi libertando. 

Mas a minha liberdade traz responsabilidade. Agora retribuo em gratidão nas minhas partilhas, no telefonema a um companheiro, na boa vontade para ouvir. Antes, não conseguia governar a minha vida. Agora, já tenho as ferramentas para viver serenamente e dou amor de graça, como o recebo. 

O rei álcool está, só por hoje, destronado. Mas outros reis estão a desejar o poder, como a preguiça, a gula ou a procrastinação. 

Agora que estou livre da compulsão para beber, ganhei outras liberdades maiores. Ganhei autodeterminação para fazer os meus dias produtivos e crescer como pessoa. A liberdade cresce com o respeito por mim e pelos outros e torna-me responsável pelas minhas atitudes. Quando bebia, estes valores tinham pouco peso. 

Peço a orientação de Deus. Quero ser leve como uma pena e deixar-me levar pelos acontecimentos do dia. Aceitando a Sua vontade, não gasto energia a lutar contra a realidade, reservando as minhas forças para a liberdade de mudar o que está ao meu alcance.