Sem dor não há crescimento

Cheguei a AA com a vida ainda mais ou menos estruturada, “… com emprego, família e dois carros na garagem…”. A ingovernabilidade da minha vida foi difícil de aceitar, mas era real. O sofrimento e o desgoverno económico assim o demonstravam. 

Com a entrada na Comunidade sem grandes perdas na vida familiar e profissional, situação que se manteve durante alguns anos, a minha partilha reflectia que, se não tivesse trabalho ou estivesse sozinho, nunca teria conseguido parar de beber. 

Sempre que ouvia companheiros partilharem estas duras realidades, da solidão ou das dificuldades económicas, tinha muita dificuldade em identificar-me, não com o sofrimento do activo, mas com a capacidade de enfrentá-las. 

Assim, quando fui confrontado com a minha primeira grande dificuldade pessoal - o divórcio -, tremi. Percebi que a minha verdadeira riqueza era a minha sanidade. Por isso, e para continuar a mantê-la, tive de encontrar um novo Grupo base onde pudesse fazer serviço. Mesmo assim, estive quase um ano “parado”, a fazer "serviços mínimos" de manutenção da abstinência. Aos 48 anos, voltar a viver em casa dos pais e ter de deixar o meu filho Bernardo a viver com a mãe a 100 km de distância foram rudes golpes, pelo que demorei a pôr verdadeira acção na minha recuperação. 

Um ano após o divórcio, quando saí do estado de inércia em que me encontrava, conheci a mulher com quem vivo ainda hoje, que foi alguém importante nesta fase do meu percurso porque me ajudou no relacionamento com o meu filho Bernardo. De facto, e apesar da distância, fui sendo capaz de desenvolver uma boa relação com o meu filho, de ser um pai com que ele pudesse contar e, dentro da medida do possível, fui-me tornando presente nas suas actividades extracurriculares, como os escuteiros e o rugby. Hoje estou grato por ter podido ter esse tempo de qualidade com ele. 

Entretanto, e por ter tempo disponível e para manter a cabeça ocupada, fiz admissão à Universidade para ver até que ponto ainda seria capaz de estudar e aprender. Mas, acima de tudo, para confirmar que não beber possibilitava isso e muito mais. 

Apesar de ter consciência de que a minha relação com o Poder Superior não seria a melhor, não me esforçava para modificar o meu comportamento. Por isso, ia torpedeando a minha própria condição espiritual. 

Numa quarta-feira, quando ia para a reunião do meu Grupo base, telefonaram das Caldas da Rainha. Disseram que tinha acontecido um acidente com o Bernardo. Quando dei por mim, estava a caminho do hospital para reconhecer o corpo do meu filho. Foi uma dor que se instalou, profunda, intensa, e que me atinge todos os dias da minha vida. 

Foi no velório e funeral dele que eu percebi o quanto nós os dois tínhamos conseguido fazer das nossas vidas. Do Bernardo, o que foi dito é que ele ficava feliz quando as pessoas à sua volta estavam felizes, que tinha deixado o mundo melhor do que o tinha encontrado, que era um amigo especial, um companheiro de excelência, um bom aluno, etc. O que eu mais ouvi foi que Deus só chama os melhores, que a sua alma estava completa.  De repente, a simples ideia de estar vivo era incómoda. Não foi, não é fácil. Estava a meio da licenciatura. Tudo o que me ocorria após a sua morte era que já tinha feito o impossível, que não restava nada mais para fazer. Mas, ao mesmo tempo, se eu estava vivo, deveria haver uma razão para isso, apesar de eu não estar a vê-la. 

Tem sido nas salas, com a ajuda do Programa e dos companheiros, que vou conseguindo pôr as coisas na perspectiva correcta: vou aprendendo a viver, um dia de cada vez, sem álcool e sem o Bernardo

Com o tempo, fui percebendo que, quanto mais entrego a minha vontade e a minha vida ao meu Poder Superior, se for trabalhando a minha condição espiritual e a minha gratidão, se continuar a pôr acção no Programa de Recuperação e continuar a dispor-me a fazer mais um pouco por esta Comunidade que me salva a vida diariamente, eu estarei a cumprir a Sua vontade em relação a mim.  

Uma das coisas que passei a fazer foi rezar diariamente. Tenho, inclusive, uma oração que dedico ao meu filho, que me foi oferecida por uma companheira por quem tenho grande estima. Assim, fui desenvolvendo a boa vontade necessária para acabar a licenciatura sem nunca repetir um exame. E para deixar de fumar. 

O que percebi é que tenho a melhor ferramenta do mundo para me ajudar a lidar com toda e qualquer dificuldade que surja na minha vida – é esse o legado da recuperação assente no Programa dos Doze Passos -, que tenho uma Comunidade que me ajuda a compreender os meus erros e o que tenho de fazer para emendar o que pode ser emendado. 

Depois da morte do Bernardo, a minha mulher, que insistiu que eu precisava de ajuda psicológica, é hoje a primeira a dizer-me não só o quanto cresci mas também como se sente admirada pela forma como vou conseguindo superar o dia-a-dia e pela importância de ter esta Comunidade e este programa de vida. 

Hoje, tenho consciência do privilégio que foi participar na educação de um ser maravilhoso, que tocou muita gente no seu percurso de vida. O Bernardo não foi um produto meu, mas o facto de eu ter deixado de beber quando ele tinha cinco anos permitiu que eu fosse uma parte importante daquilo que o ajudou a tornar-se na pessoa que foi. O seu legado, que eu procuro seguir, é simples: a melhor forma de alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros.

Continuo um ser imperfeito, cheio de defeitos mas, cada vez mais, vou conseguindo aceitar a minha condição de imperfeição e aprendendo a viver, independentemente da minha própria personalidade deformada. O essencial é ouvir o que as pessoas dizem, pois é através delas que Deus, como eu O entendo, se revela. 

O que me caracteriza hoje, acima de tudo, é a forma como eu lido com a realidade, como me comporto como ser humano. Quanto mais eu vivo “só por hoje”, trabalho a minha aceitação, desenvolvo a boa vontade e a capacidade de ser honesto comigo, mais tudo se torna possível. 

Estou grato por estar vivo, por estar sóbrio e por ter AA na minha vida.