A virtualidade

Estou habituado a ver o brilho no olhar de quem partilha nas reuniões presenciais, fruto da acção colocada na vida por via deste Programa de Recuperação, o ar de felicidade, de serenidade, de paz estampado num sorriso, num olhar... Indícios que detecto em companheiros quando partilham ou quando ouvem, absortos nas narrativas que escutam, ou no entusiasmo com que relatam um acontecimento superado, serenamente. Tudo isto, embora se recorde, perdeu-se por agora, por via da pandemia.  

Inicialmente, sobreveio a tristeza, que rapidamente foi superada pelo espanto com o aparecimento das reuniões online, pela possibilidade de, num ápice, poder estar com companheiros de norte a sul, alguns que só nos eventos nacionais encontro e revejo com gáudio. É certo que falta o abraço, o carinho, a nossa roda de mãos dadas, mas, por outro lado, realizo o que há muito tenho mantido em agenda, embora virtualmente, e que não me tem sido possível fazer por força dos problemas de saúde: reatar um procedimento que outrora floresceu na nossa Comunidade, que é a participação em reuniões de outros Grupos como forma de dinamizar a nossa unidade. 

Tenho feito reuniões umas atrás das outras e, qual não é o meu espanto quando, num destes dias, ao fazer o meu inventário diário, dei-me conta de que consigo perceber a felicidade, a alegria dos reencontros online, pela entoação da voz! Admirável esta capacidade que se adquire de sentir, ouvindo, o que se sentia presencialmente através da visão e do tacto. 

Como alguns companheiros sabem, tenho estado afastado de alguns dos eventos e reuniões durante estes quase três últimos anos e, sempre que estou a recuperar a capacidade de me deslocar às reuniões, passado pouco tempo vejo-me remetido ao enclausuramento em casa por via de um agravamento da minha situação clínica. Agora, em isolamento, com tempo para meditar, retiro ensinamentos da minha clausura: bem vistas as coisas, ela até me estruturou emocionalmente para a presente situação. Promoveu a apetência pela leitura, que, embora ainda ténue, floresce a cada página lida. 

Em suma, é sempre possível aprender com as situações, se quiser e me predispuser a olhá-las pela positiva. Cabe-me a mim, fruto da minha recuperação, enaltecer a positividade das circunstâncias em detrimento da sua negatividade. Cabe-me a mim modificar o que sinto, olhar em frente e, sempre que necessário, arrepiar caminho com a vossa ajuda.